sábado, 14 de julho de 2012

Os Crimes de Costumes na Sociedade Yorùbá

Na sociedade tradicional Africana o sagrado e o secular são inseparáveis. Não há comparti mentalização da vida. O que a religião proíbe ou condena a sociedade também proíbe e condena, e da mesma forma a sociedade aprova as coisas que a religião sancionou. Uma ofensa a Deus é uma ofensa contra o homem, de forma que um crime contra o homem é uma ofensa contra Deus, pois o homem é uma criatura de Deus. Qualquer ofensa é crime.  A religião tradicional africana não tem documentos legais escritos mostrando o que é legal ou ilegal, mas a tradição africana tem um código de conduta que todos conhecemos. Este código norteia os indivíduos a viver em conformidade com o bem-estar da sociedade. Os componentes deste código foram transmitidos oralmente de geração em geração. As ações penais incluem o adultério, a violação do pacto, roubo, prostituição, incesto, sequestro, irreverência e mau tratamento e violência contra os pais, mentira, assassinato, estupro, sedução, falar mal do governante (Rei), jurar falsamente, sodomia e malícia (dissimulação). Todos os atos proibidos ou profanar segredos são crimes na Religião Tradicional Africana (TRA) e qualquer pessoa que cometer qualquer um deles é considerada como um criminoso e é punível. Um comportamento anormal que não esteja em conformidade com as normas da sociedade são atos criminosos. Não poderemos lidar com todos eles neste trabalho, mas devemos discutir alguns.

Adultério O adultério é a relação sexual entre uma mulher casada e qualquer outro homem que não seja o marido, ou entre um homem casado e qualquer outra mulher que não seja a sua esposa. Aplica-se igualmente a uma mulher prometida em casamento. É considerado um crime ultrajante, golpeando a norma da sociedade e quando resulta em concepção (filho), que inflige uma prole espúria sobre o marido (os filhos são mal ditos). A estrutura de parentesco de nossa sociedade torna crime o adultério não apenas contra o marido como um indivíduo, mas também contra as pessoas com quem o marido está na relação. O casamento é uma cerimônia social na comunidade tradicional onde os valores sociais são reafirmados.  O adultério é também uma ofensa contra os objetos religiosos do marido, inclusive seus ancestrais (Egungun). Além disso, é um ato criminoso contra os òrìsás, porque o casamento no contexto tradicional é uma instituição sagrada, sancionada por eles, e qualquer ato de infidelidade no convívio matrimonial do casal é punido por seres sobrenaturais (energias celestes). Desde o início do namoro, os rituais religiosos são realizados para estabilizar e santificar a relação; ancestrais e divindades são consultados e pede-se o seu apoio. Normalmente, a esposa de um adepto da religião tradicional é, por assim dizer, "a mulher dos deuses" Ela é recomendada para o cuidado e proteção dos seres sobrenaturais e ela deve ser fiel. Rituais e cerimônias acompanham ou seguem a ocasião do casamento. O objetivo destas é rezar para o bem-estar de novo casal, para abençoá-los assim que eles vão ter filhos eles também recebem instruções e regras sobre como se comportarem como pessoas casadas. Nesses rituais, o Deus vivo (òrìsá) e morto da família (ancestral) podem ser chamados para testemunhar a ocasião e dar as suas bênçãos para o novo casal. Na África tradicional não é conivente com o adultério, é uma violação das normas sociais e religiosas e que gera uma relação doentia e prejudicial à sociedade, uma relação que pode arruinar o total bem-estar do povo. O adultério é visto com grande preocupação e a punição e muito séria. O adúltero pode ser advertido e comunicado em primeira instância pelos lideres, mas a persistência no crime o leva ao tribunal presidido pelo chefe tradicional ou sacerdote. O adúltero também pode ser agredido ou punido com a morte por envenenamento ou ser impotente (feitiço). A morte de uma pessoa adúltera é visto como um castigo justo e não é muito lamentada. Entre os iorubás o oráculo de Ifá adverte contra o adultério como segue: Ela destrói os membros da família do marido, Ela destrói os membros da família da concubina. Posteriormente, ela destrói a si mesmo e continua a viagem até o céu (condenação a morte). Assim diz o oráculo à mulher (ou homem) adúltera, é um servo da morte (Ikù). O que é verdade para o povo da religião tradicional na África, não é tão verdade assim para outros povos. Além disso, o sistema de Ifá serve como porta-voz da escritura sagrada da tradição iorubá, assunto que tem sido pesquisado por eminentes cátedros, não só entre os iorubás, mas também entre outros povos da Nigéria e em alguns países do Oeste Africano, como Serra Leoa, República da Benin, Togo e partes da costa de Gana.

Mentira. Mentir é uma tentativa de enganar, falar o que não é verdade. É proibido na religião tradicional e qualquer um que o pratique é um motim único, é um crime contra seres humanos, mas também contra os seres sobrenaturais (energias celestes). Os africanos tradicionais ensinam seus filhos a sempre dizerem a verdade, porque eles acreditam que um mentiroso é propenso a outras formas de atos criminosos, como roubo, furto e etc. O ditado "Quem mente, um dia vai roubar." É um ato comum entre algumas pessoas, esconder a mentira é considerado muito vergonhoso, particularmente quando a verdade é descoberta. Como o adultério, a mentira arruína. Ambos são por vezes considerados como hereditário. Os africanos tradicionais invocam maldições sobre os mentirosos, enquanto as divindades também os condenam. Mentir é um crime contra o coletivo. Sobre a mentira o oráculo nos adverte através do Odu Ogunda Bede (Ogunda’ogbe): O enganador... Foi à uma viagem de vinte meses e nunca mais voltou. (morreu) O mentiroso foi em uma viagem de trinta meses e nunca mais voltou. (morreu) Assim, o oráculo avisou aos enganadores e mentirosos, quando eles estavam indo em uma viagem. Eles foram avisados para não enganar ou trair os outros em terra estrangeira. Retidão alertou (a verdade), mas eles nunca deram ouvidos à advertência. O alerta foi dado por causa do futuro. A vingança pertence ao Todo-Poderoso, o Rei (Olodunmarè) que recompensará a todos segundo as suas obras (ações). Deus sabe a verdade e vai dizer que você mentiu. Chamar de vermelho que é branco e branco o que é vermelho para seu próprio beneficio, fere outras pessoas. O Odu Aji-Oghe no oráculo nos fala obre os mentirosos e mentiras: Aqueles que chamam efuru e dão esuru, tudo bem, Nosso Pai estará olhando-os do céu. Tudo bem, os que chamam uma folha de iroko de folha oro tudo bem, Nosso Pai estará olhando-os do céu. Tudo bem, aqueles que chamam de rola uma pomba de madeira, tudo bem, nosso Pai estará olhando-os do céu. Tudo bem, aqueles que chamam de azedo o que é doce, tudo bem, nosso Pai estará olhando-os do céu. Tudo bem, assim diz o oráculo para os mentirosos e enganadores. (Deus enxerga a verdade no coração das pessoas.) O Odu Obará-meji diz: Mentir não impede de se tornar rico. Quebra de aliança (traição), não impede de chegar à terceira idade (ter vida longa). Mas o dia da morte trará retribuição. Os africanos tradicionais pensam muito sobre o futuro. Eles sabem que os mentirosos vão sofrer durante e após sua morte, eles tanto quanto possível, mantém-se longe do que vai levar a tal sofrimento. Mesmo quando os seres humanos são enganados, Deus vê os mentirosos e conhece a verdade ( a verdade está dentro do coração e Deus vê dentro coração) e vai puni-los adequadamente. Os africanos tradicionais temem a ira de Deus que conduz à miséria e a desgraça. Eles preferem o prazer divino a ira divina e preferem as bênçãos divinas ao castigo divino. Quando os africanos dizem: "Deus julgará", é como se uma máquina estivesse em movimento dentro dele e o faz confessar que mentiu. Ele pode ser solicitado a jurar, e desde que ele saiba que jurar falsamente vai trazer graves repercussões, ele será imediatamente convocado a se retratar. Os deuses não suportam a mentira ou falsidade. As divindades da religião tradicional da África intimam seus fiéis para contar a verdade em todos os momentos e prometem o seu apoio à verdade. O decreto é expresso no oráculo Ejiogbe-meji:
Seja sincero, seja justo! Ah, seja verdadeiro. Seja justo! É o que verdadeiras divindades apóiam. Seja sincero, seja justo! Apesar da mentira, ser um mal comum, os africanos tradicionais que cometem mentiras às divindades serão punidos. A ira divina, que é insuportável, é um grande fator na prevenção deste crime.

Roubo Entre os africanos tradicionais é vergonhoso roubar. É considerado um crime na comunidade. Um ladrão é uma vergonha para seus parentes. Os africanos fazem ritos tradicionais para detectar o ladrão e recuperar os bens roubados (o Awo é convocado para jogar e faz magias poderosíssimas). Eles são punidos pelo tribunal ou pelas divindades e em alguns casos, os ladrões são revelados publicamente pelos deuses ou confessam publicamente e restituem os bens roubados no mesmo lugar onde ele possa ser visto pelo povo. Isto é uma consequência do poder/ira divina que faz o ladrão sofrer fisicamente ou internamente (magia).  Ele também pode ser submetido a uma tortura prolongada, doença, paralisia, cegueira parcial, a ponto de adivinhos serem consultados para saber a causa de seu infortúnio. Quando ela é atribuída ao ato de roubar, os bens roubados devem ser devolvidos e será oferecido um sacrifício propiciatório (buscando-se o perdão divino ou aplacar sua ira).  Roubos mancham a reputação e a integridade da família do ladrão, e os africanos tradicionais se esforçam muito para proteger o bom nome e a imagem de sua família. Mesmo uma família irreputável não vai querer ver seus filhos serem acusado de roubo, porque os atos criminosos trazem vergonha para seus pais. E quando membros desta família são convocados para cargos e títulos de honra a mancha pelo filho ladrão os desqualificaram para o posto de honra. Referências sempre serão feitas aos crimes anteriormente cometidos por pessoas desta família. Os africanos tradicionais nunca irão nomear um ladrão ou mentiroso ou adúltero como ser um líder ou governante. O preço desta nomeação recairia como um castigo divino sobre toda comunidade e ele não serviria como uma força adequada.  Roubar é não apenas imoral, ou um crime social, é também uma ofensa religiosa punível por Deus.  O Odu Ogbe’ale adverte contra roubo: Se o rei terreno não te vê, o rei celeste está olhando para você (Olodunmarè). Assim diz o oráculo para aquele que rouba acobertado pela escuridão, que diz que o rei terreno não vê. Deus vê o ladrão e certamente irá puni-lo.  “Vendo” aqui, não significa mera aparência, mas “vendo” será a punição.

Maus tratos e crueldade com aos pais. De acordo com a religião tradicional, os pais, depois de dar aos seus filhos uma boa formação. Cuidados até a emancipação e prepará-los adequadamente para vida, esperam que os filhos mostrem a verdadeira devoção e cuidado para com eles, independentemente se os pais são ricos ou pobres, letrados ou analfabetos. Tal devoção ao cuidado dos pais é obrigatória e se for concedida, é uma das melhores formas de oração é o caminho mais seguro para a paz, o sucesso e satisfação dos filhos. Acredita-se que tudo o que uma criança pode atingir e se qualificar na vida, os pais são responsáveis e se ele não conseguir honrar seus pais, ele cairá da altura que subiu e sua vida será desprovida de paz e satisfação. Os pais devem ser tratados e considerados como deuses, reconhecido e "adorado". É a vontade de Deus que os pais devam ser venerados e reverenciados, e qualquer sociedade onde os filhos desprezam e negligenciam seus pais, os filhos não terão as bênçãos de Deus. É a majestade de Deus que é desonrada e violada. É um crime capital para um filho não cuidar de seus pais, é proibido jogar maldição em cima de um pai ou mãe. Insolência para os pais pode ser tolerada, mas é um ato criminoso. Punição para a irreverência e a crueldade aos pais inclui: tanto a ira dos pais como a ira de Deus, que certamente vai causar um desastre na vida do filho. Em casos graves, como previsão de um desastre tem que ser retirado da vida do filho através de oferendas e sacrifícios.  O Odu Irete Eguntan no oráculo diz: Respeite sua mãe e seu pai, que você pode viver muito tempo na terra. (vida longa) Ifá diz para oferecer sacrifício (ebó) a sua mãe e seu pai, o sacrifício de justiça, cuidado e humildade. Você pode se regenerar. Ifá diz oferecer sacrifício a sua mãe e seu pai, o sacrifício da obediência cega, de cuidados, para que as maldições nunca possam cair sobre você. Pois as maldições de seu pai e sua mãe são as maldições do Todo-Poderoso. Ifá diz oferecer sacrifícios ao seu pai e sua mãe, o sacrifício da ajuda, do amor, da justiça, que você possa ter descanso, que você possa ter conforto.

sábado, 7 de julho de 2012

Ose Dudu - Sabão Preto Africano

Por volta do início do século XVI (1501), navegadores ibéros, senhores dos 7 mares, passaram a designar toda a Costa Atlântica africana e seu interior imediato como COSTA e o que dali procedesse como DA COSTA. Segundo relatos da época, de Cronistas e Viajantes portugueses, o SABÃO DA COSTA era importado pelo Brasil desde pouco depois de 1620. Era o preferido dos escravos e libertos. Ele era oriundo de uma área entre Gana e Camarões, e principalmente da Nigéria, da República do Benim e do Togo. Há praticamente 400 anos, garantem relatos de Cronistas e Viajantes da época.

Porque SABÃO DA COSTA ?

Porque é antigo. A palavra SABONETE é incorporada ao português somente na virada para o século 19 quando no Brasil “tudo” era "francês" e o "SAVONETE" dos franceses é aportuguesado. Antes disso era SABÃO mesmo. Mesmo os franceses continuam dizendo SAVON, os espanhóis dizem JABÓN (RABÓN) e os ingleses SOAP (SÔLP) e, portanto não deveria haver esse tipo de 'distinção'.

O SABÃO DA COSTA mantém o nome SABÃO por uma questão de tradição.

O SABÃO DA COSTA é um sabão sólido, de cor pardo-escuro tendendo a preta,
feito com ervas medicinais, e além de ser usado prá descarrego promove uma profunda limpeza corporal sempre que usado normalmente durante o banho, combate a caspa, cravos, espinhas, manchas escuras, coceiras e fungos do couro cabeludo além de controlar o mau cheiro produzido pelo suor.

Ose dudu é o nome dado pelos africanos ao sabão da costa.

Ao contrário dos sabões comerciais, que são feitos de produtos químicos sintéticos, o ose dudu é muito hidratante para a pele.
A receita básica é secular, das antigas tradições, tendo sido transmitida ao longo de gerações.
É feito de forma artesanal, não sendo encontrado em farmácias, somente em lojas específicas de produtos africanos, normalmente na forma bruta.
O Sabão preto é conhecido na África Ocidental por vários nomes, mas o mais comum é Ose Dudu, que é derivado do Anago ou línguas yorubá da Nigéria, Benin e Togo. Significando, literalmente, sabão (ose) Preto (Dudu).
Embora conhecido como “negro”, o sabão preto Africano varia de um marrom claro ao preto profundo, dependendo dos ingredientes e modo de preparação.
As cascas, folhas e vagens do cacau também são utilizadas para dar a cor característica.
O óleo usado para fazer o sabão varia de região para região, e inclui óleo de palma, óleo de palmaste,  manteiga de cacau e manteiga de karité. Qualquer combinação destes ingredientes é possível, e é determinado como base. Além disso, o cloreto de potássio, que é usado para fazer sabão preto africano, pode ser derivado a partir das cinzas de várias fontes vegetais, incluindo frutos do cacau, cascas de karité, folhas de bananeira e os subprodutos da produção de manteiga de karité.
O cloreto de potássio utilizado provém das cinzas de folhas de bananeira, resíduos de manteiga de karité e da casca de uma árvore local chamada Agow.
A casca é colhida de forma a não prejudicar a árvore.
O processo de elaboração do sabão é altamente sofisticado e exige a agitação das mãos, por pelo menos um dia inteiro, e um estágio de maturação (cura), por duas semanas.
O sabão pode ser processado por fusão, em fogo direto, com uma pequena quantidade de água. Durante esta fase de fusão, a textura do sabão se torna mais suave e há uma mudança de cor para um marrom chocolate.
O sabão derretido é então prensado em blocos, que podem ser cortados em barras para facilidade de uso.
O sabão preto é comumente feito pelas mãos de mulheres das aldeias africanas, que fazem o sabão para si e para sustentar suas famílias.
As mesmas mulheres que fazem sabão preto optam por usar apenas sabão preto em seus bebês, pois a pureza do sabão faz com que não resseque a pele. Na verdade, o sabão preto é geralmente o único sabão utilizado na maioria dos países do oeste Africano. É uma fonte natural de vitaminas A, e ferro, ajudando a fortalecer a pele e cabelo.
Por séculos, os ganenses e nigerianos têm usado sabão preto para ajudar a aliviar a oleosidade da pele, a psoríase, a acne, as manchas claras e vários outros problemas de pele.
As mulheres africanas usam-no durante a gravidez, para mantê-las sem estrias.
Sua utilização dentro do Culto Tradicional Yorubá:
Banhos de limpeza espiritual, Afoxé (encantamento usado em um chifre), bem como no preparo de outras Oògùn (medicina/remédio/magia).
As magias serão preparadas da seguinte forma:
Através de uma consulta a Ifá, o Sacerdote irá identificar as causas do transtorno, e sobre ela irá intervir com tratamentos que irão atuar a nível espiritual e/ou biológico.
Após identificar quais elementos utilizar, como: ervas e/ou plantas específicas; cascas, rezina ou favas de árvores; Minerais; Fósseis, Pele e Sangue de animais; entre outros… Ele irá misturá-los a massa base do sabão e fará, então, um encantamento, utilizando palavras mágicas que darão poder ao sabão (Ofó), transformando-o assim num elemento mítico, com poderes de cura.

 - REZA  PARA  USO  DO  SABÃO  DA  COSTA   AFRICANO
 “ REZA     DO     OSÉ     DUDU ”

BI  OWAWA  KO  BA
RIGI  GUN  KO  LE  GBO
GBOGBO  IRE  OWAWA  NI
KI  O  KO  FUN  (FALAR SEU NOME TODO)
IRE  OWO  IRE  ALAFIA  NI  KO  O  KO  WA
FUN  (FALAR SEU NOME TODO)  SE  NI  KI  WON  MA
YO  MO  NI  BI  WON    NYO  MO  OMO  TUN  TUN  ASE

sábado, 16 de junho de 2012

Como ERÍNLÈ transformou-se num rio


Erínlè é uma divindade Yorubá cujo culto se localiza junto do rio com o seu nome, um afluente do rio Òsùn que atravessa Ìlobùú, uma cidade do sul da Nigéria Ocidental, Ogbomoso e Osógbo.

Òrúnmìlà consultou Ifá, antes de deixar Ifé, para ir-se a um país de vales. Os adivinhos lhe disseram: “Neste país de vales, onde pretendes ir, encontrarás um bom amigo”. “Deves fazer oferendas antes de partir, para que tua viagem seja feliz.” Òrúnmìlà fez as oferendas. Ele ofereceu quatro pombos e oito mil búzios da costa. Quando ele chegou lá, quando Òrúnmìlà chegou naquele país de vales, ele tomou-se amigo de Erínlè.

Erínlè é um caçador.
Erínlè é também um guerreiro.
Erínlè é, além de tudo, um òrìsà.
Esta amizade foi grande.
Erínlè tomou dinheiro emprestado a Òrúnmìlà.
O montante deste empréstimo foi de doze mil búzios.

Quando chegou a hora de Òrúnmìlà retornar à casa de Ifé, Erínlè teria de reembolsar o empréstimo. Mas ele não tinha dinheiro. Ele sentiu vergonha e foi consultar Ifá:
"Onde poderei encontrar este dinheiro?"
Os adivinhos lhe aconselharam a oferecer um carneiro, um galo e um cachorro. Disseram-lhe, ainda, que deveria oferecer vinte e um sacos de búzios da costa.  Erínlè exclamou:
“Ahl Já devo doze mil búzios”!
Onde poderei encontrar todas estas coisas?"
Erínlè tinha um talismã nas mãos. A qualquer momento ele poderia, graças a este talismã, transformar-se em água. Quando ele assim o desejasse.

Erínlè foi, então, ao lugar onde costumava caçar. Pôs o talismã no chão e entrou terra adentro. Neste lugar havia uma jarra com água. Seus filhos o procuraram durante muito tempo. Eles foram consultar Òrúnmìlà para que ele examinasse o caso.  Òrúnmìlà lhes disse:
“Façam oferendas para encontrar vosso pai”. Talvez não o vereis mais, mas encontrarão um sinal dele."Disse-Ihes, ainda, que oferecessem sete cachorros, sete carneiros, sete galos e vinte e um sacos de búzios da cota.
Os filhos de Erínlè fizeram as oferendas.  Òrúnmìlà lhes dissera, também, que deveriam ir com os carneiros, os cães e os galos, chamar pelo pai e eles foram. Percorreram todos os lugares onde Erínlè costumava ir. Quando chegaram ao local onde Erínlè entrara terra adentro, encontraram seus instrumentos de caça: fuzil, lança, arco e flechas. Todo o material que ele usava para caçar. E, bem no meio disso tudo,  eles viram a jarra com água.  Esta água começou a escorrer. Esta água era abundante. Os filhos saudaram o pai assim:
"Oh! , Erínlè o caçador, retorne à casa!
Nós oferecemos carneiro, cachorro e galos!
“E chamaram Erinlê, sem descanso”.
Quando eles ofereceram estas coisas, o rio os seguiu no caminho de casa.  Erínlè lhes disse para deixar os galos livres, no lugar onde os encontraram. Os galos que naquele dia eles deixaram livres, são os galos que  Erínlè cria perto de seu rio, até hoje. Ninguém ousa matá-los. Certa vez, pessoas ignorantes mataram alguns. Mas os galos ressuscitavam sempre. Desde que o prato estivesse pronto,
os galos saltavam da tigela, batiam novamente suas asas - Puf! Puf! Puf! E iam empoleirar-se numa árvore Akô, cantando de novo seu cocoricô!
No mesmo momento em que, o Erínlè rio, se pôs a correr, Òsún preparava-se para partir da cidade de Ijumu. Ela também se pôs a correr. E eles se encontraram perto de Edé. Ali onde se encontraram, o leito  ,estes rios é suave - eles estão felizes. Suas águas formaram um grande rio e o curso de ambos tomou-se um mesmo. Juntos, eles correm para a lagoa.


Lendas Africanas dos Orixás,
PierreVerger/ Carybe e Corrupio.

sábado, 9 de junho de 2012

Como Òsún ganhou o título de protetora das crianças

Òrúnmìlà, òrìsà da sabedoria e da adivinhação, foi o primeiro esposo de Òsún. Um relato do odu, um dos 256 signos do sistema de Ifá, conta que  deu a Òrúnmìlà ela 16 búzios como presente de núpcias, ainda hoje usados pelos sacerdotes de  Òsún para se comunicarem com o Òrún em favor de seus seguidores.  Òrúnmìlà também permitiu à bela Òsún que fosse cultuada no mesmo dia que ele.
Infelizmente, Òsún não ficou grávida durante o casamento. De acordo com as tradições africanas, tal fato é uma desgraça, pois filhos é a prioridade de todo casal. Já aflita com a situação, ela resolveu dar a seu marido o direito de ter filhos e, relutantemente, deixou Òrúnmìlà.
Nove meses depois, Òsún conheceu seu segundo esposo: Osoosì. Os dois descobriram instantaneamente que suas personalidades se completavam, e foram muito felizes como marido e mulher. Entretanto, sua adoração um pelo outro não remediou a incapacidade de Òsún em conceber filhos de seu novo marido. Muito desapontados, eles realizaram vários rituais, sem conseguir nenhum proveito. Mas Òsún não desistiu. Ela conversou com Osoosì e ambos concordaram que ela deveria voltar para o seu primeiro marido, o adivinho Òrúnmìlà pedindo que ele consultasse Ifá para apurar o que estava acontecendo.
Quando Òsún chegou à casa de Òrúnmìlà, ele ficou feliz em vê-La e foi imediatamente consultar Ifá. Òrúnmìlà assegurou a Òsún que esta história de não ter filhos iria logo terminar. Sua solução estava no palácio de Òrún, o mundo espiritual: era para lá que Òsún deveria viajar a fim de buscar sua cura. Sua esterilidade se transformaria em fertilidade, e Olodumaré, deus supremo, abriria as portas para as crianças virem ao mundo. O adivinho aconselhou Òsún a reunir os itens que haviam saído no jogo, para que se oferecesse um sacrifício especial em sua intenção. Assim foi feito
Quando se deu por conta, Òsún estava no Òrún escutando a voz de Olodumaré, que perguntou a ela qual a razão de estar ali. Òsún ficou atônita, e Olodumaré pediu que se acalmasse. Depois de oferecer a Òsún um lugar para se sentar, Ele começou a contar histórias de seres que vinham ao Òrún para fazer pedidos semelhantes, lembrando que as crianças do Òrún fugiam deles sem razão aparente.
Então Olodumaré abriu a porta de onde as crianças estavam. Era a visão mais linda que se poderia ter. Òsún olhou maravilhada para uma multidão de meninos e meninas, que corriam para cima e para baixo, em grande algazarra. Quando as crianças viram Òsún, correram em sua direção. Ela então lhes ofereceu doces, e assim mais e mais crianças aglomeravam-se ao seu redor. Todos foram seguindo Òsún, que se encaminhava para a divisa entre o Òrún (mundo espiritual) e o Àiyé (mundo material). Porém, logo que chegaram a este ponto, as crianças pararam abruptamente. Òsún deu às crianças as últimas gostosuras do pote no topo de sua cabeça e voltou para o mundo material.
Na sua chegada, entretanto, Òsún notou que as crianças não a haviam acompanhado e começou a chorar. Ela se debulhou em lágrimas.  
Òrúnmìlà aconselhou Òsún a não mais chorar, dando-lhe parabéns. Ele lhe contou que ela estava grávida e deveria parir logo. Òsún ficou grávida de três meses, outras mulheres estéreis também engravidaram. E, quando a gravidez atingiu o nono mês, nada podia segurar os recém-nascidos que vinham ao mundo. Òsún usou ainda seus segredos para baixar a febre de seus filhos.  Òrúnmìlà recomendou que as mulheres fizessem oferendas em favor de suas crianças e também de Òsún para demonstrar sua gratidão. 



Toda vez que estas oferendas são entregues, deve-se entoar uma cantiga cujo significado é: “Saudações à Grande Mãe; aquela que usa joias de bronze para acalmar a criança”.
Òsún passou a ser venerada na terra yoruba. Ela curou a febre de todas as crianças, que não tiveram nenhuma dificuldade desde então. Foi assim que Òsún ganhou o título de Irunmalé Olomowewê, divindade protetora das crianças.